quarta-feira, 18 de abril de 2012

Conversa no ônibus

Estava eu em mais um desses coletivos pela cidade, quando quatro meninos, de seis a nove anos, entraram pela porta de trás do ônibus. Estavam vindo da escola.

De repente disse o menorzinho:
 - Preciso ir pra rodoviária encontrar meu pai e depois ir pra casa.
Bem pequenininho e magro, a pele escura e os olhos verdes se perderam em meus olhos. Parecia frágil, mas não.
O outro, o mais velho do grupo, interpelou:
- Quantos anos você tem?
E ele, após pensar na idade, respondeu:
- Seis!
- Já dá pra você voltar sozinho pra casa. Eu tenho nove e vou sozinho.
Quieto ele ficou, até que seu segundo colega disse:
- É só você gravar o número do ônibus. Se precisa pegar o 128, é só gravar 1... 2... 8..., Leblon.
O outro, que perguntou sua idade, completou:
- É, fala assim: 1...2...7, esse é o número do ônibus que estamos.
- É, faz isso, grava o ônibus que precisa e vai direto pra casa. É melhor.
Após pensar nas sugestões, ele disse:
- Não, faz você.
E o que sugeriu que ele gravasse os números respondeu:
- Se eu precisar faço mesmo.
Terminaram este assunto, quando o terceiro colega, afastado de todos, pediu que eles olhassem para ele.

O ônibus parou. Era o ponto no qual eu desceria. Precisei não ver mais essas crianças, que vivem em uma realidade distante do asfalto. No morro, com nove anos, as crianças já sabem se virar, no mundo, sozinhas. 

Bianca Garcia

Um comentário:

  1. Como já dizia o filósofo: "quem desde do morro, não morre no asfalto..."

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